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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Não é Akerlof, é limão mesmo

É Journal of Economic History:

Origins of the Sicilian Mafia: The Market for Lemons
Arcangelo Dimico (a1), Alessia Isopi (a2) and Ola Olsson (a3)
 https://doi.org/10.1017/S002205071700078X
Published online: 24 November 2017
Abstract
In this article, we study the emergence of an extractive institution that hampered economic development in Italy for more than a century: the Sicilian mafia. Since its first appearance in the late 1800s, the reasons behind the rise of the Sicilian mafia have remained a puzzle. In this article, we argue that the mafia arose as a response to an exogenous shock in the demand for oranges and lemons, following Lind's discovery in the late eighteenth century that citrus fruits cured scurvy. More specifically, we claim that mafia appeared in locations where producers made high profits from citrus production for overseas export. Operating in an environment with a weak rule of law, the mafia protected citrus production from predation and acted as intermediaries between producers and exporters. Using original data from a parliamentary inquiry in 1881–1886 on Sicilian towns, the Damiani Inquiry, we show that mafia presence is strongly related to the production of oranges and lemons. The results hold when different data sources and several controls are employed.


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Interesses privados contra objetivos públicos na educação

Em um livro clássico, David Plank (1996) afirma que a causa principal do atraso educacional brasileiro é que interesses privados se sobrepõem a objetivos públicos na educação. A afirmação parece fazer sentido com o que vivemos no dia-a-dia.

Por outro lado, Plank (1996) quer dizer com isso que, em outros lugares em que se deu a expansão educacional, os objetivos públicos ficaram a frente dos interesses privados na educação. Terá sido mesmo? É possível que autores estrangeiros idealizem a história da expansão educacional em seus próprios países.

Se tivermos em mente o que Douglass North, John Wallis e Barry Weingast escreveram em "Violence and Social Orders", podemos ter uma outra ideia acerca disso. Todas as mudanças em prol de cidadania vieram da extensão de privilégios das elites. Sob essa visão, o Estado sempre sofre de captura, mas em algum momento ocorre a transição para um arranjo que permite a extensão de privilégios.

Talvez a resposta esteja na transição e não na constatação, talvez universal em Estados "naturais" (como definem North e seus associados), de que objetivos privados se sobrepuseram aos públicos. 


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Retórica e prática no gasto educacional

Em todos os períodos que tenho estudado a respeito do atraso educacional no Brasil, há um problema bastante recorrente: a distância entre a retórica do governo e as políticas efetivamente implementadas.

Há discursos do século XIX (Rui Barbosa, por exemplo), que já mostram claramente a consciência quanto ao atraso educacional do país. Já para Getúlio Vargas, a educação era algo que salvaria a nação. Até houve expansão da educação de 1930 em diante, mas longe de ser algo exemplar. Não tenho elogios também a fazer ao período democrático, em particular aos governos de Vargas (951-54) ou Kubistschek (1956-61), ainda que Dutra (1946-1951) e Goulart (1961-63) pareçam ter sido mais sensíveis ao problema do ensino primário. No regime militar, a reforma de 1971 procurava universalizar o primeiro grau e expandir o ensino técnico-profissional, conforme era aparentemente o plano do ministro Passarinho, mas não houve recursos para se efetuar as mudanças (goste ou não o freguês da ideia de um segundo grau vocacional). 

Qualquer análise desse problema no Brasil precisa dar conta dessa distância. A explicação não é  necessariamente uma tentativa de governos de enganar a população. Talvez os governantes ou segmentos das elites políticas até achassem algo em tese importante. Contudo, educação aparentemente não interessava nem ao eleitorado, nem a certos grupos políticos com maior influência nas decisões.



sexta-feira, 18 de março de 2016

Polarização e crise institucional - 15 meses depois

::: Escrevi esse texto em 21/10/2014 no Facebook, logo antes do segundo turno, preocupado com a estabilidade institucional. Agora temos um governo e uma economia em frangalhos, elementos do Judiciário claramente ativistas, um ambiente que parece os anos 50-60 - ou seja, uma crise institucional. Se eu fosse mudar o texto, eu talvez revisasse o uso do conceito de "desenvolvimentismo" (já que foi uma distorção tosca e ainda mais deletéria dele) e lamentasse mais a escolha trágica (eu "marinei" no primeiro turno, o que também não era uma grande opção). Por outro lado, crises mudam coisas: pode ser para o bem ou para o mal. Tenho personalidade pessimista e avessa ao risco, mas oremos. :::

Votei na Dilma em 2010 porque reconhecia no Brasil de até então a melhor experiência de inclusão social e diminuição da desigualdade na América Latina - com manutenção de instituições democráticas e estabilidade macroeconômica durante a gestão Lula.
O país melhorou, mas o governo Dilma mudou o modelo definitivamente. O Desenvolvimentismo é conservador, autoritário e pouco humano (a ditadura militar também gostava dela) - muito pior do que o tripé macroeconômico de FHC e Lula. Esse meio-desenvolvimentismo, tentando se adaptar a uma democracia e fingindo que valoriza estabilidade macroeconômica é talvez o pior de todos, porque ninguém sabe o que vai acontecer amanhã: nem crescimento alto gera (o único benefício que políticas desenvolvimentistas poderiam trazer, ainda que com custos humanos altíssimos). Uma política macroeconômica mal conduzida, por seu insucesso e pelos conflitos excessivos que geram, compromete as conquistas sociais, a estabilidade política e pode se tornar uma ameaça às instituições democráticas.
O Aécio é mais conservador em diversos aspectos, eu sei. Muitas pessoas, com valores bem próximos aos meus, têm a mesma posição crítica que eu em relação às duas candidaturas, mas votarão na Dilma porque veem no Aécio coisa ainda pior. Fiquei indeciso por um tempo e entendo perfeitamente quem faz a opção pela continuidade. Mas diante do intenso maniqueísmo, ainda mais estimulado pela campanha da incumbente, e do risco que isso representa à nossa jovem democracia, optei em não votar na Dilma. Em geral, retrocessos institucionais são precedidos por polarização - e no Brasil não tivemos poucos episódios do tipo. Isso talvez desagrade quem tem valores parecidos com os meus, mas é preciso ser fiel à sua consciência - e, por isso, espero respeito ao meu posicionamento.
Não sei quem vai vencer, mas que tanto vencedores quanto perdedores entendam que instituições democráticas são o nosso patrimônio mais importante, até para não colocar em risco os avanços sociais no longo prazo. Só assim teremos um país desenvolvido, livre e igualitário. Isso em um futuro ainda distante - até porque, quem quer que vença, teremos quatro anos difíceis pela frente.
PS: O antropólogo Luiz Eduardo Soares talvez tenha sido a pessoa que melhor captou minha percepção: http://www1.folha.uol.com.br/…/1533101-luiz-eduardo-soares-…
PPS: Eduardo Jorge, Eduardo Campos e Marina eram opções melhores.

domingo, 1 de março de 2015

Será que Zizek considerou seriamente o liberalismo igualitário?

Talvez haja um ponto no recente texto de Slavoj Zizek comentando os ataques a Charlie Hebdo e o fundamentalismo islâmico. Há talvez uma série de questionamentos quanto à sua interpretação psicanalítica acerca do fundamentalismo (devo essa ideia ao Felipe Pimentel) e, certamente, também há aqueles que veem no texto prescrições contrárias ao liberalismo político. De qualquer maneira, talvez exista algum fundamento no seu diagnóstico sobre a insuficiência das democracias liberais em trazer paz e justiça (se considerarmos que elas andam juntas e são desejáveis).

De acordo com Zizek (pelo menos em minha interpretação e com o perdão para a incapacidade de meu teclado em acentuar corretamente nomes eslavos), a democracia liberal não consegue resolver os problemas distributivos. Acredito que esse diagnóstico esteja correto no que se refere a condições suficientes. No entanto, acho que a democracia liberal é uma condição necessária, mas não suficiente, para um mundo com menos opressivo (que seria um mundo melhor, mas longe do ideal idílico desejado por muitos). Evidentemente, um bom debate são as restrições culturais, uma vez que a democracia liberal é mais associada à cultura ocidental, ainda que o indiano Amartya Sen tenha praticamente me convencido acerca da importância das ideias democráticas no pensamento asiático. Nesse debate, em que novamente esquerda e direita se dividem de maneira tribal, talvez John Rawls e outros liberais igualitários já tenham fundamentado uma teoria que valoriza tanto a democracia liberal quanto as demandas por maior igualdade distributiva. Infelizmente, tais proposições parecem sempre estar à margem do debate, mesmo quando propõem liberalismo igualitário em nível global (ver Thomas Pogge ou Amartya Sen sobre o tema).

Portanto, mesmo reconhecendo alguma dose de razão em Zizek em termos de diagnóstico, muitas prescrições ou soluções para o problema poderiam ser defendidas. Médicos diferentes concordam muitas vezes no diagnóstico de certa enfermidade, embora recomendem diferentes remédios. Nesse sentido, acredito que o liberalismo igualitário tenha respostas mais adequadas às demandas por liberdade, igualdade e fraternidade (nesse choque aparentemente "civilizacional", essa última parece ser importante).

Ainda assim, resta saber se os pontos tocados por Zizek não dependem demais de seu pressuposto psicanalítico, envolvendo insegurança, sentimento de ameaça e comportamento de grupo. Talvez isso seja tarefa para antropólogos - não devo ir além disso nesse texto.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Radicalismos

Radicalismos podem conter uma série de equívocos: a principal delas é a incapacidade de ver que outros podem ter um pouco de razão. E geralmente, embora seja papo de boteco, pessoas radicais em um aspecto da vida (digamos, posição política), costumam ser também ser radicais em outras áreas da vida.

A despeito das possíveis explicações genéticas e sociológicas para explicar os radicalismos, com todas as suas ramificações psicológicas, o radicalismo pode conter algo de bom. O seu grande defeito, a incapacidade de perceber as razões que motivam o outro lado, também guarda a virtude: se eles são tão radicais, em algum ponto eles podem estar certos.

Na questão política, o radicalismo libertário - apesar de todo seu exagero quanto ao papel da opressão estatal, em boa parte por conta dos absurdos traumas gerados pelas ditaduras totalitárias do século XX, mostra que a liberdade de consciência, por exemplo, é um aspecto fundamental a ser respeitado. O indivíduo não pode ser esquecido. Por outro lado, o radicalismo socialista/comunista mostra que existe de algo fundamentalmente errado em sociedades extremamente individualistas, que não protegem os mais vulneráveis e que geram desigualdades políticas e econômicas. A comunidade também não pode ser ignorada. 

As soluções advogadas pelos radicais justamente cometem erros por desconsiderarem um desses lados. Uma sociedade com Estado mínimo tende a deixar tudo ocorrer naturalmente - onde obviamente os fortes terão vantagens sobre os fracos. A existência de um Estado maior não garante a nivelação dos fracos com os fortes, mas nesse caso a questão não é se deve haver Estado, mas sim que tipo de Estado deve existir. Por outro lado, é evidente que um Estado totalitário ou autoritário passa por cima de liberdades individuais, que foram sendo paulatinamente conquistadas desde a Reforma, passando pelas revoluções liberais na França e nos Estados Unidos. O Estado excessivamente grande é também uma ilusão como solucionador dos problemas: oprimir com o poder econômico é suficientemente grotesco, quanto mais com o poder político de jure nas mãos. O Estado, nesse caso, não deixa de ser uma aplicação de uma lógica de selva. Estado ou Mercado não são panaceias. Esse conflito é um mito.

Lendas liberais ou socialistas continuam inspirando pessoas. Não é ilegítimo. Mas muitos deles, no afã de fazer prevalecer suas visões, permitiram derramamento de sangue. Às vezes me assusto quando esses estão acima de exemplos como Gandhi ou Martin Luther King, pessoas na minha opinião, muito mais inspiradoras.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Mapa interativo

Para quem está precisando de uma fonte compilada de dados que não seja o CIA Factbook ou de novos recursos didáticos, o mapa interativo StatWorld é excelente. É um mapa interativo que junta gráficos, mapas e dados em uma única tela. As possibilidades são inúmeras, além de conter uma fonte de dados públicos (inclusive econômicas) bastante ampla.